Por Wagner Santos
A III Expo Afro Paulista segue movimentando a estrutura montada na Praça Sebastião Gomes de Melo, no bairro de Nossa Senhora da Conceição, ao lado do terminal da linha Pau Amarelo, reunindo empreendedores, artistas, lideranças culturais e religiosos de matriz africana em uma programação que reafirma identidade, memória e resistência. O evento, que integra o calendário do Festival Novembro Negro, chega à sua reta final e terá encerramento no domingo (30).
Neste sábado (29), o palco principal recebeu intervenções voltadas ao papel da cultura negra na formação social do município, destacando a ancestralidade como ferramenta política e educativa. As discussões aprofundaram temas como racismo estrutural, religiosidade de matriz africana, proteção dos povos de terreiro e a necessidade de ampliar a representatividade negra em espaços de poder. O público participou ativamente das rodas de conversa, compartilhando vivências e reforçando a urgência de ações permanentes de valorização cultural.
O debate mais aguardado do dia ocorreu no Espaço Ọrọ Dúdú – Preta Fala, durante a Roda de Diálogo “Racismo Ambiental”, conduzida pela advogada e embaixadora da ONU, Camila Áfrora, e pela educadora e ativista Ranielle Vital. As duas aprofundaram a relação entre desigualdade climática, impacto territorial e questões raciais, destacando como comunidades negras são historicamente as mais atingidas pelos efeitos das mudanças climáticas.
Camila explicou que o racismo ambiental se conecta diretamente à estrutura social do país. “A questão climática não atinge todas as pessoas da mesma forma. As comunidades negras, muitas chefiadas por mulheres, enfrentam o peso da desigualdade ambiental todos os dias”, afirmou. Ela também ressaltou que o Brasil vive um momento importante após a COP-30: “Pela primeira vez, o termo afrodescendente entrou em documentos oficiais ligados ao clima, reconhecendo internacionalmente que o impacto ambiental tem cor e território”, enfatizou.
Ranielle reforçou como esse tema faz parte do cotidiano das periferias, citando exemplos vividos em Paulista. “As pessoas negras nas comunidades são as que mais sofrem com a falta d’água, com os alagamentos, com o saneamento precário. Isso não é coincidência, é estrutura. É o racismo ambiental que se expressa nos serviços básicos que não chegam”, destacou. Para ela, compreender esses mecanismos é essencial para lutar por justiça climática: “Quando nomeamos o problema, a gente passa a enxergar caminhos”, explicou Ranielle.
O encontro avançou para reflexões sobre financiamento climático, participação comunitária e o protagonismo dos povos tradicionais na proteção ambiental. Os debates mostraram que o Festival Novembro Negro não é apenas um espaço de celebração cultural, mas também de formação crítica e afirmação política.
No Palco Principal – Espaço Àṣà, o público acompanhou o Bloco Lírico Flores do Paulista, Ewerson Selector, Banda Arrieiros, Alma de Rossi e Pádua Samba de Qualidade, reforçando a musicalidade afro-brasileira como forma de resistência. No Espaço Ọmọ Eré, crianças participaram de oficinas de mágica, barbearia e percussão; enquanto o Espaço Ìléra Ayọ ofereceu práticas integrativas de saúde. A galeria Ọnà Àgbà recebeu a exposição “Memórias da Minha Religião”, valorizando o sagrado e os saberes tradicionais.
Para Nathalia de Ògún, o festival cumpre um papel fundamental ao unir cultura, formação e enfrentamento ao racismo. “Aqui nós fortalecemos a nossa ancestralidade e mostramos que a pluralidade deve ser respeitada. É um espaço para aprender, celebrar e resistir”, afirmou.
A comerciante Ita Leôncio, proprietária da Spy Bronze Paulista e Recife, destacou o estímulo ao empreendedorismo negro. “Este evento representa a minha cor, o meu axé, e fortalece empreendedores pretos da cidade. Está sendo renovador e me dá ainda mais esperança de ver nosso povo respeitado por onde passa”, disse.
O superintendente de Direitos Humanos, Kleber Pyrrho, lembrou que o festival reforça a luta institucional contra as violações de direitos. “A intolerância, seja racial ou religiosa, precisa ser enfrentada. Este espaço valoriza nossa cultura e nos lembra que novembro é um mês de conscientização permanente”, pontuou.
Entre o público, a enfermeira Cristiane Vieira, 43 anos, demonstrou surpresa positiva com a riqueza cultural do evento. “Eu não conhecia de perto essa cultura e fiquei encantada. O Novembro Negro em Paulista faz a gente aprender, reconhecer e respeitar essa história”, afirmou.
O Festival Novembro Negro segue ampliando o debate sobre identidade, memória, ancestralidade e justiça racial, reafirmando o compromisso de Paulista com políticas públicas de enfrentamento ao racismo e fortalecimento da cultura afro-brasileira.
Fotos: Duda Pavoa / Cortesia